sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Crônicas do Pistoleiro de Fogo: Capítulo 7 – Onde o Pistoleiro Repousa.


        Victor, preso entre a arma e o galpão, sentiu a dor no tronco, mas diferente, não fora só as costelas que haviam quebrado, tinha coisa mais. Tateou com a mão esquerda pela arma congelada do Vento da Água, ela era tão fria que chegava a apresentar um certo grude, nada que impedisse os movimentos dos dedos do doutor, então, sentiu o líquido quente. Baixou os olhos, a arma estava adentrando em sua barriga.

        Nesse momento, toda a dor possível foi entendida por seu cérebro em um estalo. Gritou de forma bestial. Forçou para levantar o rifle, mas cada avanço fazia parecer que seu corpo estava se partindo em dois. O sangue saia para fora mais e mais rápido, o frio tomava conta de seu peito.

        - Dessa vez você não me escapa, Victor, não importa o quanto fique se debatendo, não importa quantos contratempos você me arranje, eu tenho todo o tempo do mundo para lidar com você.

        O pistoleiro conseguiu fazer mira, ainda que de forma precária e sem total certeza de que o tiro acertaria, ainda assim, era sua melhor chance. Puxou o gatilho, o corpo do inimigo caiu com um buraco na testa. Sentiu a arma aliviar e logo depois forçar suas entranhas, ela parecia presa ao galpão de alguma forma. Se Victor olhasse por dentro do mesmo, veria que o porrete feito de lança havia o atravessado, assim como o metal da lateral da construção, onde o gelo se expandiu para não ser puxado de volta.

        O doutor foi percebendo seus pensamentos diminuírem no fluxo, desaparecendo um por um, até sobrar um único persistente. “Preciso sair dessa merda. Pense! Pense! Pense! Pense, Victor, desgraça!”



~o~


        Biorn, após derrubar o último soldado, se virou para onde Victor estava, já preparando para começar uma corrida, mas suas pernas travaram. Foi o segundo mais rápido e, ainda assim, de passagem mais longa. Primeiro perdeu o chão, a boca caiu, os braços perderam a tensão de batalha, os olhos de felino pareciam menos assassinos. Um cheiro de sangue em particular chegou à suas narinas, não qualquer sangue, como o dos guardas que ele mesmo havia cortado, mas sim o de Victor.

        Sua mão apertou forte o cabo da espada, os pelos erriçaram, o rugido que soltou foi de botar medo em qualquer homem. Foi aterrador o suficiente para o Vento da Água encarar o Garrel. Ou ao menos tentar.

        O tigre siberiano e albino, apesar de estar longe, matou esse obstáculo sem sequer suar e em menos de um segundo. Seu coração recebeu uma dose extrema de adrenalina, seus músculos receberam os impulsos dos ancestrais selvagens, seu sangue ferveu. Ele correu totalmente curvado para frente, o braço esquerdo fazendo o apoio e o direito pronto para atacar com a espada.         Enquanto os olhos do Vento da Água recém o procuravam, a lâmina de Biorn já lhe atravessava o coração. O Garrel de quase duzentos quilos agarrou o cabo da arma com as duas mãos e levou o inimigo ao chão, cravando-o lá.

        - Vic! Maldição, VIc! – Biorn olhava perdidamente para os lados, buscando qualquer coisa que fosse – Chomp! Faça alguma coisa, Chomp!

        Apesar de ter derrubado o homem, a arma desse continuava presa ao corpo do pistoleiro, uma formação irregular na ponta havia cravado no corpo de Victor, o sangue tingia a arma azulada em vermelho. O doutor não falava nada, deveria ter desmaiado de dor, Biorn sequer pensava em outra possibilidade que não essa.

        O peito do Vento da Água tornou a erguer, como se recebesse um sopro de vida. Um potente soco acertou o Garrel albino, de peles cobertos em sangue por causa dos guardas, cujo corpo tombou para o lado e um segundo depois já estava como um felino em posição de ataque novamente. O homem, então, arranca do peito a espada ali cravada.

        - Malditos, parem de se debater, suas formigas desgraçadas! – Começou a se levantar, mas então os dois joelhos cederam, um borrão carmesim encheu seus olhos.

        Chomp atirara em cada um dos joelhos do Vento da Água e, antes que esse tombasse, emendou um soco duplo com suas duas mãos direitas. Biorn pulou pegar a espada que o outro não jogara muito longe e, nem um segundo depois, se lançava de novo para cima de seu alvo, com a agilidade de um gato.

        O Tembão Carmesin saiu da frente do companheiro, correndo para o lado de Victor, gritando seu próprio nome várias e várias vezes, mas não tinha ninguém ali que o entendesse.

        - Tira ele daqui, Chomp! – Biorn atacou o inimigo com um arco ascendente da espada, da direita à esquerda. Da cintura ao ombro – Vai! Eu seguro esse merda!

        Vento da Água puxou seu porrete de gelo, ciente de que já não havia mais volta para os ferimentos de seu irmão de fogo. O Garrel albino socou-o no lado do rosto com a mão esquerda um par de vezes e com força suficiente para tirar os sensos de direção dele. O terceiro murro o fez cambalear e o quarto a girar no próprio eixo.

        O ajudante do monge gingou sua arma gigantesca de modo a atingir tudo e qualquer coisa que estivesse em sua frente, sem se importar com mira. Biorn cravou a espada na lateral do porrete e apoiou a perna tentando parar a mesma, mas sentiu seu corpo continuando rumo as caixas de madeira, sentiu as costas baterem de cheio numa dessas e o ar escapou de seus pulmões junto de um grunhido.

        Nesse meio tempo, o Tembão Carmesin passou um dos braços de Victor por sobre o ombro e o arrastou para fora da área do galpão, olhou para o lado e um punhado de militares, com armas de fogo ou espadas, se dirigia para o lado deles. O sangue esvaia muito rápido do corpo do companheiro, como médico, Chomp não sabia se conseguiria lidar com aquela merda, não tinha muito o que fazer.

        Biorn pulou para cima do Vento da Água numa nova investida, arrancando-lhe o braço direiro com um golpe limpo de espada. O membro decepado virou uma poça de água e um novo já ameaçava crescer e tomar o lugar do antigo.

        O Garrel albino sentiu um poderoso chute em sua armadura, tão forte que seu estômago parecia ter recebido o ataque. Depois veio outro mais forte, fazendo o felino ser jogado um par de metros para trás. O ajudante do monge pulou para frente e o acertou com uma porretada de lado, o jogando mais uns metros na direção de aonde o mesmo e Chomp batalhavam segundos antes.        Os guardas se aproximavam, correndo, e, assim que viram a gigantesca arma do Vento da Água, abriram fogo. Nenhum humano normal carregaria uma coisa daquelas.

        Com a saída de Biorn e do ajudante do monge, o caminho ficou aberto para o Tembão carmesim fugir para o outro lado, com pressa, sem parar sequer um segundo olhar para trás. Parou nas costas do galpão, despejou com cuidado o corpo do amigo no chão.

        - Chomp! Chomp! Chomp!

        Enquanto isso, o Garrel albino sentiu um bala passar de raspão em seu rosto, logo acima do olho direito, não deu bola para a dor, mas sabia que aquilo deixaria uma nova cicatriz. Puxou uma espada do chão. Como diabos ia matar aquele desgraçado se ele não morria? Empalou o Vento da Água, levantando quase um metro do chão, tirou as armas tão rápido quanto as fincou, chutou o inimigo antes desse cair no chão.

        Tinha de fugir. Fugir sem deixar o maldito os seguir. Cravou as espadas uma em cada pulso do ajudante do monge. Gritando.

        - Um dia teremos uma luta melhor, mas por hora, você tem que ficar aqui e se comportar.

        Biorn sentiu uma bala cravar em sua armadura e outra fazer um risco vermelho em seu braço. Pulou na direção de mais um par de espadas, voltou com a mesma velocidade. As cravou nas pernas que se debatiam do Vento da Água, isso depois de as passar no pescoço do mesmo para o silenciar, já que ele ameaçava gritar alguma coisa.

        Os guardas se aproximavam, tinha que se apressar. 

        Pulou em direção a mais uma arma no chão e teve que percorrer um bom trecho de chão para pegar outra e se dirigir de volta ao seu alvo. Separou a cabeça do Vento da Água do corpo e cravou uma das espadas em sua testa. A última fincou no coração. E saiu correndo. Tudo isso custou-lhe nem cinco segundos e mais três tiros. Um atravessou sua coxa e quase o derrubou. Outro adentrou o abdômen, mas não sentiu sair. Tinha de fugir. O sangue fugia depressa pelos seus machucados. A dor o dominava como nunca antes o fizera. A visão embaçava e precisava piscar rápido para se manter acordado.         Cruzou entre as enormes caixas de madeira e deixou um rastro não muito difícil de seguir, mas as coisas estavam acontecendo tão rápido naquela noite que os guardas não tinham tempo de ir atrás de tudo que estava aparecendo. Além de que, o Vento da Água se debatia, tentando se soltar, e nenhum homem ali tinha culhão suficiente para enfrentar o que diabos fosse aquela criatura se debatendo mesmo com uma espada atravessando a cabeça.

        O Garrel albino farejou as essências características de Victor e Chomp, indo quase que cegamente para atrás do galpão, onde achou os dois no chão.

        - Temos que ir embora daqui, Chomp! – Grunhiu o felino.

        - Chomp! – Gritou o baixinho, assumindo uma posição defensiva, como se fosse morder Biorn, caso ele se aproximasse, depois apontou para o rombo no peito de Victor.

        - Eu sei que é sério, desgraça, mas se ficarmos aqui vamos todos morrer, você entende isso?

        - CHOMP!

        - Vamos ao menos nos esconder, não conseguiremos nada ficando aqui, a não ser que você queira mais mortes, baixinho... – Nenhuma resposta veio do Tembão carmesim que apenas grunhia – Por favor, não me faça ter de carregar vocês dois a força, por que eu vou!

        Sem haver uma mudança de opinião de nenhum dos lados, Biorn impôs suas condições usando da força, ergueu Chomp pelo colarinho e o segurou por baixo do braços. Colocou Victor no ombro e saiu a passos apressados, o mais rápido que conseguia com todos os ferimentos que possuía.


~o~

        Um turbilhão negro rodopiava na mente de Victor, como um tornado de corvos carregando os pedaços de seu corpo e os espalhando na terra para que se fizessem de semente. Sentia como se cada célula de seu corpo fosse atravessada por uma agulha, sentia o calor indo embora, sentia a energia desaparecendo aos poucos.

        Os olhos se abriram, e não havia céu, tudo era uma imensidão branca. Boiava em alguma coisa que não era água, era azul e sem expressão. A cabeça estava pesada, a mente não conseguia entender todas as coisas que lhe preenchiam a visão. Via um chão azul, onde seus braços e pernas afundavam, assim como parte de seu corpo nu.

        Haviam tantos outros ali, sem rumo, se mexendo lentamente. Ou seria ele quem estava vagando? Sentia falta do cigarro. Sentia falta de sentir. Sentia falta do calor. Sentia falta das batidas do próprio coração.

        Por fim os olhos ficaram pesados demais para se manterem abertos e a mente desfaleceu junto à visão.



sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Crônicas do Pistoleiro de Fogo: Capítulo 6 – Onde os Quatro Ventos Colidem.


        A riso ensandecido do vento da água cortou a noite junto de um punhado de trovões. As gotas começavam a cair das nuvens, grossas e confrontando o chão aos estouros. Já Drika correu até o monge, gritando para se fazer ouvida.
        - O que diabos aconteceu, pai?

        - O corpo não aguentou todo o poder – Respondeu tranquilamente o monge.

        - E o que fazemos agora? – Continuou a vento da terra.

        - Vamos embora, não tem mais nada que possamos fazer aqui.
        Os três ventos consentiram com o silêncio, apesar de o vento da água ainda estar rindo, de braços abertos como se pudesse abraçar o mundo naquele momento. Houve um rugido alto do ser de aspecto reptiliano e um jato de fogo tomou os ares em direção ao céus. As pessoas gritando nas ruas, já correndo para longe do local, era a animação da cena. Os nobres ainda em cima do grande carro de desfile choravam se amontoando nos cantos, implorando por suas miseráveis vidas.

        Implorando por um ato de clemência vindo de qualquer uns dos quatro ali de pé. Mas o ato não veio, não por parte deles.
        Com sede de sangue, o réptil gigante e de grandiosas asas avançou com sua bocarra bem aberta, atacando os nobres como se não passassem de um pedaço de carne qualquer. Um pedaço de carne grande, suculento e mal passado. Os ossos dos lordes palitavam os dentes da criatura e suas vestes iam junto, garganta a baixo, como se fossem tempero.
        Com o derramamento do líquido vital das criaturas agora disformes, este inundou o chão e escorreu pelas laterais do carro, até chegar a aonde os escravos trabalhavam, empurrando a geringonça. Amedrontados, começaram a correr para fora, tomando as ruas rumo à qualquer lugar.
        Num só pulo, a criatura gigantesca tomou a praça, e as pessoas tiveram medo ao menor relance de sua face. Uma face disforme, cheia de escamas e com olhos de gato, com a mesma forma da de um lagarto, os dentes gigantes se faziam a mostra no urro que essa dava no momento. Um urro alto, cortante, que fazia a alma tremer.
        Por fim, todos os desejos do rei gordo se fizeram realidade, era poderoso, se fazia temido, nada mais importava. A noiva com quem anunciaria o casamento nesse mesmo dia, e que ainda se aprontava no interior do carro, recém subia para o topo do mesmo apenas para encarar um monte de corpos mutilados, quatro pessoas discutindo e um monstro gigante rugindo na praça, lançando chamas indomáveis contra o céu.
        Do outro lado da praça, nos galpões militares, uma explosão levantou diversos fogos que não conseguiram ascender aos céus e tiveram seu esplendor ainda no chão, atrás de um abarrotado de caixotes.
        O amontoado de informações fez o vento da água correr para ver os galpões, afinal, Victor havia entrado lá e não fizera mais nada. Ao mesmo tempo, ele bradou para o monge.        
        - Pai, podemos fazer o que quisermos agora, certo? – Um sorriso maligno cortava o rosto do questionador.

        O monge deu um passo mais à frente, olhando para a cria imperfeita que surgira de seu julgamento. Sentiu pena da vida desgraçada que aquela criatura levaria daquele dia em diante, mas pelo menos, naquela forma, ele desapegaria de todo aquele orgulho infundado e poder inexistente. Um jovem gordo que devia ter engolido o rei e assim recebido o dom de governar o povo, ao menos isso explicaria a barriga.


        - Sim, estão todos dispensados, vou me retirar por uns dias – Falou o homem aparentemente velho, de vestes brancas.
        - Para onde você vai agora, pai? – Era Drika, mostrando-se preocupada.


        - Para onde os ventos me levarem – E com um sorriso, desapareceu.
        Houve um urro do príncipe mostrengo lá na praça e um estouro no acampamento militar. Um projétil abandonou o local de descanso, no rifle de Victor e voou em direção ao único maldito que enxergava. O vento da água tombou com um buraco no meio da testa.


~o~

        - Onde está o monge?! – Gritou Victor, do topo das caixas de madeiras, segurando o rifle com uma só mão e um cigarro acesso nos lábios.


        Quebrou o cano com jeito e tirou outra bala de um cinto interno do sobretudo, próprio para as mesmas, já deixando tudo pronto para um próximo disparo. Haviam duas lentes levantadas e isso era suficiente. Os guardas, que no momento invadiam a própria base para tentar parar os invasores, dividiam-se entre observar a criatura reptiliana a lançar jatos de fogo para o céu, bem no meio da praça da cidade, e procurar o humano loiro junto de um Garrel albino que invadiram o local.
        - Droga, Vic! – Berrou, Biorn – Vamos dar o fora daqui logo, não vamos conseguir dar conta de tantos inimigos!


        - Você e Chomp, cuidem dos guardas, aqui tem mais um punhado de balas pra você, pequeno – O doutor puxou dois cintos repletos de projéteis de dentro do sobretudo e alcançou para o Tembão, que as recepcionou com um sorriso de orelha a orelha.
        - Não faça besteiras, Vic, pelo amor das quatro Équinas!


        - Acalme-se, Biorn... confie em mim... eles ainda não conseguiram criar um novo vento do fogo, mas se eu não eliminar essa aberração, meus poderes começarão a esvair até ela.
        - É bom você conseguir, senão, Vic, eu juro que te encho de porrada – Berrou o Garrel albino, já saltando de encontro aos guardas.
        - CHOMP! CHOMP! – Gritou Chomp. “Boa sorte”, entendeu o doutor, que era o único ser em todo o mundo que conseguia aquela façanha.
        Nem um par de segundos depois, já começou a ouvir os disparos. O pistoleiro então correu por cima das caixas, pulando os espaços entre elas e indo para mais próximo da rua. Sentia o corpo ainda ardendo, não podia abusar tanto de sua chama interior. Por sorte, naquele dia, tinha o Tembão por perto e esse se apressou em esquentar seu corpo com uma chuva de fogos de artifício.
        Desde que se tornara o vento do fogo, Victor adquirira a habilidade de absorver o calor em qualquer forma, sua pele não queimava nem quando posta em uma lareira acesa, até mesmo sentia-se mais forte. Suas três áreas mágicas se potencializavam, qualquer explosão era palpável como fonte de energia, seu poder de cálculo ia ao máximo, onde medir um corpo e implodi-lo se tornava algo fácil, além disso, por fim, seu controle de área se ampliava, dando uma boa percepção de qualquer calor e sua intensidade, possibilitando até mesmo prever o tamanho de uma explosão e manipulá-la.


        Por causa dessas coisas gostava de ter se tornado um dos ventos. Mas há muito tempo já não abusava de seus poderes e os treinava, estava ficando mais fraco, tinha medo de logo não conseguir mais lutar contra o monge, de não conseguir nem chegar próximo do mesmo sem ter de implorar por perdão, sem ter de implorar por sua vida.


        Terminando as caixas, forçou o pulo para alcançar o pequeno muro externo, onde se colocou de pé e fez novamente a mira. Um riso debochado cruzou os ares, afagou e logo cutucou os ouvidos de Victor.
        O vento da água se pôs de pé, boca escancarada mostrando o grande sorriso. Drika logo chegou aos fundos do grande carro se pondo ao lado deste, junto de seu irmão gêmeo, Leon, o vendo do ar. A chuva começava a cair forte, os gritos das pessoas ainda era presente, mas a maioria já se escondia, impregnando no ambiente um forte cheiro de medo.
        Victor disparou de novo, fazendo o vento da água tombar novamente, e outra vez o tiro fora no meio da testa. O doutor tinha desavenças antigas com aquele homem e não queria ver a cara dele nunca mais, ou melhor, queria, se ele estivesse morto, com uma expressão de dor... e sem uns membros.
        - Boa noite, Drika – Grunhiu o pistoleiro, fazendo uma reverência contida em um gingo do rifle, logo puxando outra bala e preparando a arma para outro disparo.
        - Vivi... você apareceu mesmo... – Havia uma insegurança ali por parte da Súcubos.
        - Desgraçado! – Berrou ainda no chão o vento da água, com um rombo na testa que se fechava aos poucos.
        - Fazem alguns anos... Kaká... – Um sorriso duro instaurou-se nos lábios de Victor, aquela simples troca de apelidos simbolizavam muito para ele.
        Simbolizava muito aos dois, as expressões faciais de ambos provavam isso.
        - Victor, seu maldito, eu vou terminar com voc..! – Outro estouro e o recém levantado tombou novamente.
        - Calem a boca desse merda de uma vez, estamos conversando aqui – Bradou o pistoleiro.
        - Sabe que se ele levantar vai ir aí te esmagar, não é, Victor? – Era o vento do ar, transvestido na forma de um homem encantador, cabelos negros curtos, sorriso impecável, músculos definidos aparentes, já que estava sem camisa. No rosto, uma barba ainda por fazer. Com aquela correria, ele acabara com a forma de um dos heróis de uma velha cantiga.
        - Ora, ora, Leon, você costumava ser mais agradável quando ficava quieto, sabia? Eu estou conversando aqui com sua irmã, então me dê um tempo – O pistoleiro quebrava mais uma vez o cano do pesado rifle, colocando outra bala na agulha.

        - Vivi, preciso lhe dizer uma coisa... – Era Drika, séria.
        - Hei, Vivi! – Berrou o vento da água, com o cérebro voltando à cabeça e os ferimentos se fechando milagrosamente – Também preciso lhe dizer uma coisinha – Dessa vez o já três vezes derrubado se manteve no chão – Nosso pai já foi embora! Você perdeu de novo... que pen...


        Houve um novo estouro, a bala passou entre o vento da terra e o do ar, uma pequena explosão mudou sua rota, fazendo assim um queixo ser dividido em duas partes. A arcada dentária inferior se partiu, ficando com o projétil metálico preso entre os ossos. O vento da água rolou de dor.


        Victor quebrou novamente o cano, colocando uma nova bala.
        - O que ele diz é verdade, Drika? – Sem sorrisos, sem mais brincadeiras.
        - Ele acabou de partir, está atrasado, Vivi! – Era o vento do ar, desdenhoso.
        - Não falei com você, Leon! – Victor gritou, fazendo a cabeça do homem heroico de pontaria.
        Uma lufada de ar bateu forte no pistoleiro, seu sobretudo marrom e velho tremulou e pareceu ganhar vida, como se a qualquer momento fosse se desfazer de seu dono e voar para longe de suas costas. O homem loiro e de quase dois metros estava de lado, fazendo mira com a potente arma de fogo.
        O dragão na praça começava a espalhar seu fogo nas casas ao seu redor, liberando as chamas de seu interior para qualquer coisa que estivesse em sua frente. Era uma fera descontrolada, poderosa.
        - Vivi... – Era a vento da terra – Desista dessa merda que você está fazendo, volte para o nosso lado antes que termine morto em uma vala num canto obscuro dessa cidade...


        - Você não entende, não é, Drika? Todos vocês parecem cegos, mas não é isso que interessa agora, para onde o monge foi?
        Silêncio.
        O vento da água colocou-se de pé em um pulo, tirou o guarda-chuva da cintura e o abriu num click, escorando-o no ombro. As pesadas gotas da tempestade se acumulavam sobre o enegrecido couro emborrachado que cobria a armação metálica do objeto. Se amalgamavam e começavam a criar forma, ganhando volume, erguendo-se aos poucos.
        Victor mirava Leon, depois Drika, voltava ao gêmeo e passava o foco para o irmão mais ao fundo.
        - Me respondam, para onde o monge foi?! – Berrou mais alto o pistoleiro.
        Drika baixou o rosto, levemente incomodada e triste. Seu irmão ficou mais sério, a expressão fechou-se em um misto único de confiança e ódio, clássico dos heróis. Já o vento da água esboçou um sorriso malicioso, de criança que faria arte, logo gritando.
        - Você é muito inocente, Vivi! Acredita mesmo que vai conseguir fazer alguma coisa a nós sem usar seus poderes? Ou acha que não percebemos o quanto você está fraco? Você é uma piada ambulante.
        A água se acumulava cada vez mais no topo do guarda-chuva, se erguendo com corpo, já somando mais de dois palmos. A chuva mantinha o ritmo, as gotas caiam grossas, machucavam a superfície da pele.


~o~

        Enquanto isso, no chão, Biorn corria de um lado a outro, desviando dos inimigos, tentando atacar, contando com um pouco de ajuda de Chomp, que lidava com os que estavam portando armas de fogo também. O Garrel albino sangrava, um tiro havia perfurado sua armadura e adentrado sua carne na base das costelas esquerdas, outra havia perfurado o ombro direito e atravessado, arrancando um bom naco de pele.
        Com um pulo, Biorn agarrou o último homem da linha de frente pela cabeça e socou-o no estomago, depois duas vezes no nariz, furtou a espada que esse tinha nas mãos e sacou a sua própria, já empalando o segundo militar. Urrou na cara de um terceiro e as pernas desse tremeram, os braços não conseguiam levantar a arma.
        Houve quatro estouros momentâneos, e quatro corpos foram ao chão. Chomp defendeu um ataque vindo de cima cruzando os revolveres, sentia que Victor iria lhe matar depois por causa daquele risco de espada em suas preciosidades, mas melhor morrer depois do que naquela merda de lugar. Com o par de braços inferiores atacou o lado do joelho direito do militar diversas vezes e com força, fazendo o homem agonizar em dor e perder o sustento.
        Biorn jogou o corpo preso em suas espadas para a direita e depois puxou as duas armas para a esquerda, fazendo um duplo arco horizontal no peito do inimigo ainda assustado, jorrando mais sangue em seu pelo puramente branco. Finalizando-o, chutou-o no peito e impulsionou-se num pulo para o próximo.



~o~
        Victor mantinha os olhos nos três, ciente de suas próprias fraquezas. Não podia errar. Seu corpo ardia, os pingos de chuva eram pequenos martelos batendo-lhe na pele, as lentes do óculos estavam distorcidas por causa da água e ficava difícil de enxergar.
        Drika virou-se de costas, odiando ao homem que até então encarava. Como podia ser aquilo? Ela nunca o amou, se fez de objeto para o monge a fim de controlar os ânimos do pistoleiro antigamente, por que seu coração batia mais forte? Por que não conseguia usar de toda raiva que tinha para acertar as contas com ele? Por que seu antigo apelido havia a abalado tanto?


        Leon olhou para a irmã por um segundo. Expressão de desgosto. Sabia no que ela estava pensando e não gostava nem um pouco. Por causa disso, o ar circundava o homem de feições heroicas como lâminas afiadas e suas vestes – que se limitavam a uma calça – tremulavam.


        O vento da água era virado em um sorriso cheio de malícia, de quem estava adorando a situação, suas vestes negras cobriam todo o corpo e o capuz dava conta do rosto. O guarda-chuva escorado no ombro acumulava mais água, e quanto mais acumulava, mais rápido a estrutura crescia, formando um porrete gigante pouco a pouco.
        - O que diabos vocês vão fazer à essa cidade agora? – Victor tentava ganhar tempo para Biorn e Chomp chegarem ali e lhe oferecerem um mínimo de suporte que fosse.
        - Que raios de pergunta é essa, Vivi? É óbvio que iremos embora, assim que eu terminar com você. De hoje você não me escapa.


        - Abram esses malditos olhos, como vocês acham que ir de cidade em cidade, terminando com as mesmas e quebrando toda a política que forma suas bases é uma boa coisa? Devem estar todos loucos também, ludibriados pelo falso esplendor daquele velho maldito. Usem essa maldita cabeça de vocês uma única vez, como diabos matar centenas de pessoas inocentes pode ser algo justo?!
        - Não se trata de justiça, Vivi, se trata de uma nova era que está para começar, onde ninguém precisará temer seus líderes, pois o povo liderará a si mesmo. É isso que estamos implementando, é por isso que essa onda de terror é necessária, caso contrário os homens e mulheres que aqui moram nunca irão despertar o lado combatente e cheio de adrenalina que possuem – O vento da água respondia com desgosto, ainda com um sorriso nos lábios. Sua arma estava quase pronta, já apresentando a forma de uma coluna líquida de dois metros de altura – Você fez parte disso, Vivi, ainda faz, e até mesmo já concordou com esses ideais, então, o que te torna melhor que a gente? O que lhe faz acreditar que somos nós que estamos errados?


        Houve um minuto de silêncio, onde finalmente o guarda-chuva acumulou toda a água que seu mestre desejava, amontoando-se dois metros e meio rumo aos céus.
        - Eu estou certo por que viajei para todas as cidades onde intervimos, eu vi o povo e tudo em que eu acreditei caiu por terra, o que eu fiz e o que vocês fazem não trouxe nada de bom. Eu perdi meu reino acreditando que seria o melhor para todos e lá, agora, eles passam fome, trabalham como escravos, onde diabos isso é bom? Tive vergonha de encarar à todos que conhecia e até mesmo mudei de nome. Eu vou terminar com vocês, eu não preciso desses poderes malditos que o monge me deu, e se acha que só vocês três são suficientes para me parar, pois venham, eu vou empalar seus corpos e esperar o monge aparecer.
        - Vamos ver quem vai empalar quem aqui, Vivi!
        O vento da água desatou a correr depois de gritar, sua arma condensou e congelou num instante, formando um pilar. Os trovões cortavam os céus, a chuva caía ainda mais forte, se é que isso era possível.
        - Você não vai intervir dessa vez, Drika? – Perguntou Leon, com calma e baixinho.
        - Estou cansada dessa gritaria toda, eu vou para casa – Era ainda mais evidente o quão deprimida essa estava e, sem pressa, ela começou a caminhar no sentido contrário ao vento do fogo.
        Victor apressou-se em fazer mira, deixando a bala escapar pelo cano e novamente rumando ao meio da testa do vento da água. Esse, por sua vez, chegou ao limite do grande carro, carregando a pesada arma ainda escorada no ombro e apenas com a mão direita. O braço esquerdo ia na frente, como se abrindo caminho pelo ar. Sem hesitar, forçou as pernas e pulou para a rua, buscando atravessar os trinta – talvez vinte – metros que se colocavam entre ele e sua presa.
        O projétil estourou no ar, mudou a rota e cravou no braço do alvo. Como a bala que outrora dividiu o queixo do mesmo homem, essa foi repelida para fora sem esforço, os ossos ficaram líquidos um instante, expandiram e condensaram, reganhando a forma, o mesmo foi com a pele.
        Com agilidade, em apenas um segundo inteiro, Victor quebrou o cano da arma, colocou outra bala rente a agulha, fechou-a apropriadamente, cuspiu o cigarro da boca e levou um projétil aos lábios, segurando-o nos dentes como faria se fosse outro artigo fumável. Em mais três segundos, que se passaram consecutivamente à esse primeiro, houve dois disparos e um punhado de gritos de dor por parte do vento da água.
O pistoleiro fez o primeiro disparo atravessar a coxa de seu alvo. Abriu a arma, cuspiu a bala para a mão, recarregou e atirou rumando um dos pés do mesmo homem.
        Estava difícil mirar, a chuva cobria as lentes de seu óculos e enxergar aquele borrão negro correndo não era das coisas mais fáceis. O vento da água começou a levantar um instante depois, a raiva lhe tomava o corpo.
        - Para com essa merda, seu frangote, eu vou te partir em dois assim que eu te pegar, eu juro em nome de todos os deuses!
Com um novo disparo, que fez o alvo novamente tombar, Victor gritou.
        - Se continuar tropeçando assim, terá que jurar no nome de muitos mais para me alcançar!
        O vento do fogo abriu o sobretudo, tinha mais seis projéteis, engoliu em seco. Por sorte o outro não viu aquilo, senão teria ganho confiança suficiente para se arremessar correndo mais uma vez.
        O vento da água levantou-se, o sorriso desaparecera totalmente do rosto, dando espaço para lábios tremulantes que mal conseguiam conter a raiva que ali se estabelecia. Ele então começou a acumular a água no braço esquerdo que ia a frente como se fosse um escudo, andando devagar.
        Victor ligou o transmissor na bochecha com um click e falou baixinho.
        - Hei, Biorn, preciso de uma mão aqui, vão demorar muito ainda?
- Estamos ocupados aqui, Vic! Nos dê mais um minuto e terminamos, talvez dois!


        O pistoleiro torceu os lábios com um certo quê de ódio, e teria engolido em seco novamente se os olhos do inimigo não estivessem tão fixados em seu corpo como um todo.
        Em cima do carro, antes empurrado por escravos, o vento do ar sentou-se, ainda observando a irmã ir embora. Quando está se embrenhou nas vielas e desapareceu, ele virou-se para frente, não pensando em intervir ali. Odiava os dois em mesmo grau e gênero, e, para ele, se qualquer um destes morresse, não faria falta.
        Victor atirou mais uma vez, acertando o escudo do vento da água em cheio. O gelo rachou e logo recebeu uma camada a mais, se recuperando de todo o dano. O pistoleiro recarregou e hesitou na bala subsequente, tinha que se aperfeiçoar no uso das últimas cinco ou aquilo não terminaria bem.
        O muro de onde o doutor atirava não tinha sequer quatro metros de altura e o pilar parecia o alcançar mesmo com seu portador no chão. Na verdade, o gelo o acertaria no joelho se fosse um golpe reto. Victor, sem pensar muito, pulou de volta às caixas e baixou as lentes do rifle mirando a olho nu.
        - Preciso de ajuda aqui, Biorn, é sério – Sussurrou mais uma vez para o Garrel albino, que demorou a responder.
        - Também precisamos de ajuda aqui, Vic, se puder dar um pulinho aqui, nós nos agrupamos e contra-atacamos – Barulhos de metais confrontando faziam o cenário de fundo no áudio.
        O pistoleiro pulou de caixa em caixa para conseguir descer, mantendo o rifle bem próximo do peito. Escutou um estrondo forte. Ignorou. Já próximo dos galpões virou-se para a área aberta. Na contagem rápida, quinze guardas, talvez mais. De onde todos aqueles malditos surgiam?
        Olhou para o outro lado, viu que mais se preparavam para entrar em conflito com eles. Eram mais vinte... logo vinte e cinco.
        - Retirada, Biorn, agora. Retirada! – Bradou com o orgulho ferido – E veja se não esquece o Chomp dessa vez.
        Victor escutou outro estouro, e mais outro. Barulhos de madeira indo uma de encontro à outra e cedendo perante uma força maior. Ignorou. Disparou para ajudar Biorn, recarregou e com a bala derrubou mais um soldado.
        - Corram para fora daí, agora, temos que recuar, Biorn! Nosso dia definitivamente não é hoje! – Nesse ponto Victor já berrava, não se importando com o transmissor, somente com a quantidade de homens que se aprontavam mais ao fundo do acampamento.
        - Estamos dando nosso melhor aqui, Vic! Se acalme, desgraça!
        O pistoleiro agora escutava os disparos do Tembão carmesim, os sons melódicos de espadas bem afinadas se encontrando, cada uma seguindo o próprio ritmo. Madeira estralando perto, virou-se no reflexo, bem a tempo de ver a ponta do pilar de gelo surgindo por uma das laterais da caixa adjacente à ele.
        Pensou em rolar, em pular, em sair da frente, mas o máximo que conseguiu fazer foi tirar o rifle do caminho, sentindo a pancada na boca do estômago. O vento da água, não satisfeito, continuou a investida, fazer do gigantesco porrete uma lança, carregando Victor na ponta com orgulho e levando-o ao encontro da parede de metal do galpão.
        O confronto entre pele e ferro causou um barulho em tons graves, como se o próprio ambiente tivesse sentido o golpe que o homem levara. Desencostando a ponta da arma, atingiu Victor com estocadas no mesmo número de vezes que este o derrubou ao chão. Quatro pancadas com força de ogro.
        O pistoleiro cuspiu sangue, sentiu uma meia dúzia de costelas quebradas a reclamar de dor. O vento da água o manteve de pé, forçando-o junto ao metal.        - Finalmente, Vivi! Finalmente peguei você, seu maldito rato esguio! Eu não sei como você escapou da última vez, mas dessa é de certo que você não passa – Um sorriso macabro tomou o rosto do homem, parecendo cortar a boca em seus tons brancos reluzentes.



sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Crônicas do Pistoleiro de Fogo: Capítulo 5 – Onde os Quatro Ventos Agem.


        Biorn derrubou meia dúzia de guardas e rugiu alto, sentindo o cheiro de chuva vindo. De pronto olhou assustado para o céu, estranhando tamanha limpidez em que esse se encontrava. Algo estava errado, seu faro nunca o enganara, mesmo com álcool turvando seus pensamentos. Acertou a espada de lado na cabeça do guarda à sua frente, que desmaiou de pronto, e gritou.
        - Hei, Vic! O tempo ‘tá fechando, temos que nos apressar!
        Houve um disparo e logo outro, dois guardas desabaram mortos.
        - Biorn! Avance para o portão, eu te dou cobertura!
        Estouro atrás de estouro, uma bala e depois mais uma. Um corpo caindo aqui e outro ali. Dos onze guardas e único oficial de patente alta que guardavam a entrada, haviam mais quatro para tentar conter o alvoroço de pessoas e o ataque. A carreata começava a avançar rumo à praça, os fogos de artifício subiam ao céu e estouravam potentes. Reforços começavam a chegar, tentando se embrenhar entre o povo que se afastava gritando e meio descontrolado.
        O Garrel albino atacou um guarda e esse se defendeu com a espada, então Biorn o socou na cara com toda força e depois o acotovelou no nariz, desviou de um reforço que esse recebera e continuou correndo em direção aos portões. Ouviu um disparo, e o homem que o seguia tombou.
        Victor fez a mira, atirou. Acerto. Grudou com a coronha no peito do último da linha de defesa e logo então apontou a arma para o coração deste.
        - Se ficar parado ai, não precisa morrer! – Ameaçou o vento do fogo, andando de costas em direção ao portão.
        O cadeado do portão de entrada cedeu com um estouro depois de um par de espadadas lançadas por Biorn. Victor observou o tanto de militares que se aproximavam dos portões e sua expressão não estava das melhores, tinha que dar um jeito na situação. Se apressaram em tornar a fechar a entrada. O doutor jogou o rifle para o Garrel albino, que o pegou no ar pois sabia que caso contrário receberia xingamentos, canalizou todo o calor do corpo entre as duas partes que estabeleciam o portão e liberou a energia. O ferro derreteu de leve, o suficiente para grudar as duas partes.
        Um segundo depois, o frio entrou rasgando o corpo de Victor, que começou a tremer de pronto e uma forte dor de cabeça quase o fez desmaiar. Biorn guardou a espada e por pouco não deixou o outro cair de encontro ao chão. Com jeito, puxou o corpo do companheiro para o ombro e saiu correndo para dentro do lugar.
        - Droga, Vic! Não tinha nada melhor para fazer?
        - Desculpe, Biorn, foi o máximo que eu consegui pensar.
        O Garrel soltou um grunhido, mas continuou seguindo em frente, fugindo do raio de visão da entrada, se escondendo entre umas caixas de madeira. Pararam próximo à lateral de um dos galpões, de frente ao que estava soltando os fogos. Victor se debatia, esfregando os membros, mas não conseguia juntar de volta todo o calor que usou, o coração batia depressa e dolorido, já começando a diminuir de ritmo, o tremor dos membros ficara quase extremo, uma sonolência afligia o cérebro.
        Por fim os músculos começar a ficar rígidos, o corpo, agora no chão, começava a se prostrar.
        - B-Biorn... eu... eu preciso de uma fonte de calor agora, se possível... d-droga...
        - Que merda! Merda! Merda! De onde diabos eu vou tirar um negócio desses agora, Vic?
        - F-fogos d-de artifício. B-Biorn... Ache Chomp, ele s-saberá o que fazer...
        - Desgraça, Vic! Quando essa noite terminar, eu juro que te dou uns sopapos.
        O Garrel albino desatou a correr por entre as caixas, rumando ao outro galpão. Ouvia o barulho dos guardas a tentarem derrubar o portão sem sucesso, por isso os ignorava. Sentia cheiro de sangue vindo do galpão à frente. Como corria no máximo que conseguia, os braços auxiliavam as pernas e sua velocidade era impressionante, não tinha tempo de conferir tudo e adentrou a construção imensa.
        Lá dentro, por um segundo sua visão ficou repleta em negro, por causa da diferença de luz, e depois observou vinte homens no relance, que diminuíram para dez assim que se acostumou à escuridão, todos carregando os fogos para fora para um nova leva de tiros em um carrinho de empurrar. Sacou a espada de pronto quando esses não pareceram dos mais amigáveis e, assim que os viu correndo em investida para cima de si, agiu primeiro.
        Biorn levantou a arma com força, usando só da mão esquerda, conseguindo desviar a lâmina do primeiro atacante e o agarrando pela cabeça. Passou a perna por trás das do inimigo e o levou ao chão, fazendo o crânio bater forte contra o solo. Foi de ombro na barriga do que vinha por segundo e, assim que esse foi para trás, a lâmina do Garrel abriu-o no estomago, em um corte horizontal e limpo.
        Os outros temeram ao verem o sangue jorrando das tripas do companheiro e vacilaram na corrida. Biorn saltou para cima da dupla mais a frente, fazendo a espada atravessar o coração de um e logo abrir as costelas do outro. Rugiu alto, mostrando seu lado mais bestial. Não tinha tempo para se preocupar com a segurança daqueles ali senão Victor morreria. Ouviu um grito lá de trás e um dos guardas caiu, e logo outro. Os últimos quatro se amontoaram e Chomp apareceu, mais ferido que antes, o ombro sangrava, assim como um dos braços inferiores e uma das laterais.
        - Chomp! Graças às quatro équinas, Vic está com problemas lá fora, hipotermia, tem alguma ideia do que fazer?!
        Biorn berrava, mas não deixava de encarar àqueles homens, qualquer sinal ofensivo que fosse e ele os desmaiaria, ou até pior, os mataria se fosse preciso. O Tembão carmesim bateu as palmas de cima, indicando que tinha uma ideia, e se botou a empurrar os fogos para fora usando de toda sua força. O Garrel albino, observando a cena, se apressou em dar um trato nos quatro homens, com golpes precisos apenas para desmaiar, e foi logo ajudar.
        Quando saíram do galpão, empurrando a pilha de fogos às pressas, escutaram o estouro dos portões cedendo.
        - Merda! – Bradou Biorn, pensando se a situação poderia piorar ainda mais.



~o~


        Drika, o vento da terra, e Leon, o vento do ar, chegaram ao carro principal silenciosamente, por causa dos poderes do Íncubos. Andaram até onde o vento da água se encontrava, observando o céu mudar repentinamente e nuvens negras começarem a se formar.
        Havia uma certa agitação ali em cima, os lordes acenavam para o povo e mesmo assim temiam a virada climática.
        - O que diabos é isso, vento da água? – Era a Súcubos, com o corpo transmutado em uma bela mulher de cabelos morenos, usando um vestido vermelho sangue que contrastava com a pele branca como a lua, além disso, possuía seios fartos e um traseiro de dar inveja à qualquer raça do sexo feminino.
        Leon, mais silencioso, apenas se aproximou da parte de trás, encarando ao outro dos ventos. Por sua vez, o Íncubos vestia roupas de um lorde, aparentemente de seda e em tons prata, o cabelo era loiro e caía até os ombros, de olhos verdes e barba bem aparada.
        - Vocês estão sabendo? Victor está aqui? – Havia um tom maníaco na voz do vento da água, um tom de quem queria terminar alguns assuntos antigos aquela noite mesmo.
        - Todos sabem disso, afinal o pai está aqui, não está? – De novo Drika, apresentando a mesma agitação dos nobres, de quem sabia que algo iria dar errado e não poderia evitar.
        - Ora, ora, Drika... vocês ainda estão nessa confusão entre amor e ódio? Achei que você não o protegeria dessa vez...
        - Cale essa maldita boca e pare já com essa chuva, antes que estrague o desfile e zangue nosso pai.
        - Não, não, não. Não sou eu quem vai estragar algo dessa vez, acredite em mim, Drika.
        - Controle essa língua, antes que eu a arranque depois de te fazer engolir os dentes, maldito da água.
        - Quer tentar a sorte, vento da terra? – O vento da água levou o guarda-chuva para o ombro, como se fosse algum tipo de arma e falou de forma desafiadora.
        - Parem já os dois com essas mesquinharias – Era a vez de Leon se intrometer – Daqui a pouco o pai estará subindo aqui e não vai gostar dessas discussões inúteis.
        - Ora, Leon, desde quando ficou tão confiante, hein? A última vez que nos vimos você estava mais silencioso... acho que por isso eu gostava de você.
        - Nem mesmo você é forte o suficiente para enfrentar à mim e minha irmã juntos, vento da água, então é melhor se acalmar antes que uma nova briga por poder se instaure aqui.
        - Acho que devíamos chamar o Victor para cá, ele ia adorar a chance de matar nosso pai e tentar dar cabo de todos nós também.
        Tanto a Súcubos quanto o Íncubos deram passos para a frente, um tanto raivosos. Ambos sabiam que o vento da água era o mais forte dos quatro, assim como o braço direito do monge, mas mesmo assim não hesitariam em tentar a chance de terminar com a vida do desgraçado se esse não parasse com o mesmo jeito idiota de agir de sempre.
        - Eu não sei por que nosso pai confia tanto em você – Era Drika – Só que apenas isso não vai salvar seu couro se continuar nos provocando, maldito da água.
        - Ele confia em mim por que os outros três não passam de um bando de inúteis e até talvez ele já esteja pensando em os substituir.
        Leon se adiantou em avançar na direção do outro vento e, quando estava a ponto de socá-lo, enxergou de relance o rosto de calma inabalável do velho monge. As vestes brancas desse tremulavam no vento. A lua já se escondia atrás das nuvens, o clima mudava rápido. Com sua chegada, os três se calaram e não houve mais discussões da parte destes. Então, continuando em direção à frente do carro, o monge dos quatro ventos bradou.
        - Rodrik, como está indo o desfile? – Seu jeito de falar sincero e, de certa forma, inocente continham um poder de produzir calma além do normal.
        - Claro, claro, agora só falta o senhor cumprir com o que prometeu, barão de Ardan – Rodrik, senhor daquelas terras, era um gordo com olhos de porco e rosto inchado, cujos dentes de rato se sobressiam além dos lábios.
        - Sim, sim, tudo a seu tempo, pode vir aqui para os fundos por favor? Quero lhe apresentar meus discípulos.
        - Eu não tenho tempo para isso, como último rei proclamado de toda Draconia, meu lugar é aqui, acima do povo, não me escondendo nas sombras.
        - Rodrik, isso é preciso para que se cumpra tudo aquilo que lhe prometi, acredite em mim.
        - Espero que tudo isso seja verdade mesmo, pequeno barão de Ardan, ou farei sua cidade ser reduzida à cinzas – Tentou intimidar, mas olhar para aquele rosto rechonchudo não passava exatamente o sentimento que Rodrik queria.
        - Como prometido, rei de Griselda, você será temido e receberá um poder maior do que pode imaginar, agora por favor, siga-me até os fundos, para que eu possa lhe apresentar algumas pessoas.
        Com tons de desgosto na face, Rodrik desceu do trono na ponta do grande carro e se dirigiu aos fundos, seguindo o monge de perto. Na parte de trás, os três ventos aguardavam em total silêncio a chegada de novas ordens.
        Um trovão rasgou os céus e iluminou a face do trio. A tormenta se aproximava a passos rápidos, onda uma gota já caia aqui e outra sem pressa ali.
        - Rodrik, à minha frente, por favor – O monge indicou com a mão para que o rei passasse para o meio dos três – O senhor tem certeza que deseja obter um poder maior do que o imaginável?
        - Tenho sim, é claro.
        - O senhor também tem certeza que deseja que as pessoas temam ao simples vislumbre de seu rosto?
        - Sim, sim, vamos logo com isso.
        - Então, pelo pecado da gula, eu julgo você, Rodrik Banor III, e que todos seus desejos se realizem.
        Outro trovão rasgou os céus, os gritos de dor do rei tomaram o carro, ele se debatia no chão, a pele queimava e caía do corpo aos poucos, se consumindo como se fosse um cigarro aceso e logo após se desfazendo em cinzas. Por fim o corpo estourou em uma bola de luz e as chamas que cresciam aos poucos iam engolindo tudo no caminho.
        O monge e os três ventos andaram até a frente do carro, ignorando os assustados nobres que gritavam e perguntavam coisas insignificantes.


        Por fim, um grito bestial e mais alto que todos os trovões ressoou. Um urro alto e de congelar a espinha de tão forte. O urro do novo vento do fogo que nascia de maneira imperfeita. E os poucos que olharam para cima naquele momento tiveram o privilégio e a desgraça de olhar a criatura, que tinha quase o comprimento do próprio carro, de asas longas e reptilianas.









sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Crônicas do Pistoleiro de Fogo: Capítulo 4 – Onde os Quatro Ventos Estão.




        Drika, o vento da terra, levantou-se minutos depois. Uma dor de cabeça contundente a atacava ferozmente. Levou a mão à testa e sentiu o calor de seu próprio sangue manchando seus dedos. Dor. Tateou até encontrar o projétil de metal preso em sua armadura de terra. Dor. Cravou as unhas negando os avisos do cérebro e tirar bala que tocou de leve seu crânio. Dor dos infernos.


        Rugiu, ainda na forma de tigresa.

        - Precisa se esforçar mais que isso, Vivi, meu querido – Sussurrou para si mesmo, esperando que de onde estivesse, o vento do fogo ouvisse o apelido que tanto odiava.

        Levantou-se cambaleante, um dos ouvidos zumbia pelo estouro. As pernas não firmavam. Começou a desfazer-se da armadura apenas a deixando tombar ao chão, desgrudando de seus membros. Olhou as mãos peludas e frágeis, com a direita manchada em sangue nos dedos. Rugiu.

        Sentiu novamente seu corpo mudar. Alguém a observava. Então buscou esse alguém em toda sua volta.

        - Drika, Drika, o que diabos aconteceu com você? – Era uma voz disforme e debochada, cheia de ruídos e trocas de tom. Uma variação inteira dos mais belos tons masculinos.

        Aquela voz... o vento do ar.

        A súcubo sorriu, pois seu corpo retornou a uma de suas formas primárias. Uma forma negra, de olhos brancos e toda tremulante, apresentando seios e nádegas avantajadas, além de uma cauda longa saindo da base de sua possível coluna.

        - Leon, Leon – Imitou-o – Eu estava em dúvida se você apareceria hoje, não estava sentindo sua presença – Da boca de Drika, a voz saia também disforme, variando entre os mais belos tons femininos.

        Olhou para o topo das casas e observou a figura negra e tremulante sentada na beira de um dos telhados. Um sorriso branco rasgava a face do vento do ar. O íncubos humano. Esse a observava animado, mexendo as pernas como uma criança feliz.

        - Esse estrago todo foi por causa de Victor, irmã?

        - Todos sabemos que ele nunca reagiu bem ao nosso término...

        - Não lembro de você ter ficado das mais felizes também...

        Drika rasgou um sorriso na face enegrecida e disforme.

        - Olhe aqui, Leon, já faz mais de trinta anos que isso aconteceu.

        - Mas os dois estão remoendo mágoas até hoje – Riu o íncubos, saltando para o chão, mas sua queda foi lenta e suave. Os pés tocaram a rua sem soltar o menor barulho.

        - Cale essa maldita boca, Leon, e vamos mudar de assunto. Aonde está o baixinho?

        - Ele está com o pai, os quatro ventos estão reunidos aqui, não é mesmo? Você está sabendo das novas já?

        - Que novas, Leon? – A súcubos ficou um pouco inquieta, sentiu que tinha algo estranho ali.

        - Um novo vento do fogo será eleito hoje – Falou o íncubos debochadamente.

        - E o que acontecerá a Victor?

        - Só o pai sabe, mas estou te avisando cedo pra já ir se preparando para o pior, e se o vento do fogo está aqui, é óbvio que não é para nos ajudar.

        A súcubos levou uma mão à testa e, deixando os pensamentos respirarem um pouco, respondeu.

        - Vamos nos encontrar com o pai e ver o que fazer.

        - Não vá estragar tudo dessa vez, minha irmã. Senão a próxima pode terminar sendo você, e nenhum de nós quer isso.

        - Deixe de ser hipócrita, Leon, e cale essa maldita boca antes que eu a feche por mais cem anos.

        - Eu te desafio a tentar fazer isso de novo...

        A súcubos que andava pela rua se virou, escancarando a boca de puro branco e gritando com toda sua ferocidade, fazendo o íncubos tremer na base e seguir em silêncio. Como de praxe, resolveriam as desavenças depois do reencontro, onde ninguém fosse atrapalhar os dois no que quer que decidissem fazer.



~o~



        Victor, o vento do fogo, chegou ao limite dos telhados. O cerco da área militar se erguia quase cinco metros além do topo da casa onde estava. 

        - Hei, Biorn, você consegue entrar lá? – A voz saiu com um tom de preocupação e outro de leve desespero. Tinham que resolver aquilo logo, senão perderiam mais uma oportunidade de matar o monge. 

        - Estou pensando ainda, esses muros são muito altos para escalar – Grunhiu o garrel albino.

        - Certo, plano B, vamos invadir! – Falou o homem já saltando para a ruela lateral da casa. 

        - Hei, hei, hei, Vic, hoje você ‘tá com uns parafusos a menos né?

        - Não diga bobagens, só... vamos tirar Chomp de lá e resolver de uma vez por todas o que viemos fazer. 

        - Vic! Pelos amor das quatro équinas, fique aonde está, diacho! Vamos pensar um pouco, respira. 

        Biorn se virou para a praça e começou a andar apressado, ofegante, a bebida não estava facilitando e o exercício físico repentino acelerou seu coração o bastante para agora parecer um tambor descontrolado.

        - Olha, eu mandei ele para lá, eu vou tirar ele de lá. Me encontre em frente aos portões.

        Victor se embrenhava entre as pessoas, o movimento estava tão intenso que ninguém reparava em seu rifle, e quando reparavam, achavam que era de algum guarda à paisana. Ninguém era louco de carregar uma arma daquelas num dia importante como aquele. Já Biorn enfrentava todos os olhares curiosos possíveis enquanto se deslocava, ninguém ali vestia uma armadura de metal tão aparente ou carregava uma espada de tamanho levemente avantajado na base das costas. 

        - Me escute, Vic! Se nos pegarem, a culpa é só sua, não vou querer reclamação depois. 

        - Apenas me encontre nas grades de entrada, ok? 

        - Hei, Vic! Vic! Para com essa mer....

        Victor desligou o transmissor, nem vinte metros estavam entre ele e os portões da brigada. Já observava a linha de guardas, havia onze ali sob o comando de um de patente superior, que se destacava pela boina no topo da cabeça e as estrelas douradas nos ombros. Os olhos do pistoleiro já procuravam de onde tiraria o calor para desviar atenção de todos aqueles militares.

        “Pense, Victor, pense, não precisa de muito, talvez uma distração baste...”

        Andou mais uns passos e puxou o rifle, ali no meio das pessoas mesmo. Algumas com medo abriram espaço. Ele mirou o povo, para intimidar mais. Levantou uma das lentes, buscando precisão, procurando uma cabeça em particular.

        Os guardas começaram a se mover, indo em direção ao problema, as pessoas gritavam assustadas. A carreata estava quase começando, nada deveria atrapalhar o desfile dos senhores daquelas terras, ou metade daquele povo ali ia ser torturado por juros abusivos e falta de alimento. 

        Victor achou a boina, fez mira, atirou. Um jovem cruzou a frente, a bala atravessou-lhe o pescoço, desviando do trajeto, o sangue jorrou. O pistoleiro, ainda olhando pela lente, não perdeu tempo, invocou seus poderes de fogo e seus poderes de cálculo.

        Fez uma pequena explosão num dos diversos buracos de pólvora presente no projetil. Houve um desvio de trajeto. O homem de maior patente militar teve tempo de arregalar os olhos e um pensamento começar a se formar em sua mente, os pelos do braço eriçaram milímetros e a bala atravessou o cérebro. 

        Tudo foi tão rápido que o caos se estabeleceu de pronto. 

        Victor começou a correr, o cheiro de pólvora tomava o ar vagarosamente. Havia gritos, havia tumulto. O homem empurrava toda sorte de pessoa para conseguir correr. Recebia xingamentos, escutava a marcha dos soldados. Escutou um rugido alto e gritos. Graças a deus Biorn começara a agir também.

        O Garrel albino ao ouvir o estouro, levou uma das mãos à espada, pronto para sacar a mesma. 

        Ao mesmo tempo, a carreata começou a se mover, ao som das centenas de pés de escravos confrontando o chão para empurrar aquelas obras monumentais chamadas de carros. Lá de cima, as pessoas mais importantes da região acenavam para os pobres, fazendo seu costumeiro carisma, mas no fundo, se pudessem, pisariam em cima de todos aqueles ali em baixo.

        O coração de Victor começou a bater mais forte, tomado pela adrenalina, o desfile começou antes do que havia planejado, precisava voltar à um lugar alto e arrumar o rifle. Mas ao invés disso, continuava correndo rumo aos portões do quartel. Nisso Biorn já havia desmaiado um trio de soldados, atacando meio sem jeito com as laterais de sua espada larga e de tamanho levemente avantajado.



~o~



        O vento da água levantou-se na sala onde tirava um cochilo. Era impressionante como aquela bugiganga de um punhado de toneladas se movia perante o esforço de centenas de escravos, todos escondidos na base do lugar. 

        Dentro do carro haviam seis salas de luxo, todas com escadinhas que levavam ao topo. Cada sala possuía alguns poucos metros de área, com direito a sofás e uma bancada com espelho para se enfeitar, além de um varão com diversos trajes luxuosos pendurados, feitos para apetecer a qualquer humor de um senhor. 

        O jovem levantou, enfurnado em seu sobretudo negro, cujo capuz lhe cobria toda a face. As calças pretas faziam dele uma visão monótona, já que as botas também compartilhavam do tom escuro. Carregava na cintura um guarda-chuva, também negro, seguindo a lei monocroma que ele próprio estabelecera sem perceber.

        O pouco de sono que ainda tinha foi perdendo aos poucos por causa do barulho ensurdecedor que vinha de logo abaixo de seus pés. 

        Fez uma reverência demorada ao monge que se encontrava sentado em frente ao espelho. Apesar de ter sido recebido como um lorde, não o era, e não abusaria de todas aquelas mesquinharias, tampouco usaria maquiagem para cobrir sua pele já velha e as rugas que tomavam seu rosto. Um rosto sereno, de alguém de mente limpa.

        O monge vestia um roupão inteiriço e branco, que tapava seu corpo desde a base do pescoço até os pés, ainda assim era algo puro e bonito. No rosto, uma barba dourada e bem moldada fazia sua feição ainda mais acalentadora junto de seus olhos azuis. O cabelo era curto e de um branco amarelado. 

        - Mestre – Começou o vento da água – Perdoe meus modos, deveria ter sentido sua presen....

        O monge levantou uma das mãos, indicando que aquilo era desnecessário. 

        - Seus irmãos logo estarão aqui, então daremos continuidade à nova eleição, um novo vento nascera hoje – Um sorriso leve brotava ali, não havia raiva, não havia desprezo, não havia nada que fizesse alguém odiá-lo.

        - E quanto à Victor, Mestre? Ele está aqui também, o que faremos com ele?

        - Ainda não sei, mas creio que o vento do fogo virá me receber também, à sua maneira, mas virá. 

        - Você sabe muito bem que ele não será tão pacífico assim! – O vento da água calou-se um instante e retomou – digo, desculpe-me, mestre, mas ele tentará te matar assim como nas outras vezes.

        - E por que isso te incomoda tanto, meu mais nobre pupilo? 

        - Desculpe se estou atormentando-o, mestre, só que todos os outros também estão preocupados com essa sua impunidade quanto à Victor....

        - Tudo bem, é dos mortais se sentirem incomodados com coisas tão triviais como essa. Perdoe-o por ainda não ter descoberto as dádivas que entreguei a ele e não deixe que isso lhe tome a cabeça, vá até lá em cima, sinta o vento, fique calmo, observe o povo. Em alguns minutos estarei lá também, assim que seus irmãos chegarem.

        Sem falar nada, o vento da água fez outra referência e subiu as escadinhas, engolindo em seco. O vento da água queria mais que todos dar cabo de Victor fazia muito tempo, ambos eram inimigos desde muito antes dos acontecimentos que os tornaram pessoas especiais, seguidores do monge.

        E um sorriso lhe tomou os lábios quando se escorou na parte de trás do carro, observando o lugar de onde os fogos seriam disparados ao ar. Victor junto de um Garrel albino derrubavam os guardas tentando invadir o quartel militar.

        “Sim. Isso mesmo, Victor. Venha à nosso encontro, seu desgraçado. Eu estou te esperando, vento do fogo, para resolvermos de uma vez por todas a guerra que começamos.”

        Uma gota de chuva singular caiu do céu e acertou o rosto coberto do vento da água. Por algum motivo que ninguém poderia explicar, naquela noite haveria uma tormenta.